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Bauman e a contestação da ideia otimista de purificação a partir dos infortúnios


Este texto está sendo escrito num momento em que se tem falado muito, por todos os lados, do problema do suicídio entre os jovens. A série da Netflix que aborda o assunto, Thirteen Reasons Why, em conjunto com um jogo emergido de boatos viralizados numa rede social russa, apelidado de Baleia Azul, está trazendo à tona um tema que atormenta psiquiatras e psicólogos há muito tempo.

Embora eu tenha que concordar com Daniel Martins de Barros quando diz que todo esse falatório em cima do suicídio é apenas uma tentativa desesperada de achar uma saída fácil para dar uma resposta e encontrar um culpado pela decisão de alguém com tão pouca idade encerrar a própria vida, é oportuno reproduzir a visão de Zygmunt Bauman sobre a ideia recorrente de que o homem sai fortalecido e purificado de seus sofrimentos e desiluções, como se os algozes tivessem o papel de anjos da ablução com métodos ao avesso.

Escreve Bauman em "Cegueira Moral" (página 46, edição brasileira da Zahar):

"[Existe um] mito, que todos abraçam e acalentam, de que o sofrimento enobrece e de que as vítimas da imposição da dor emergem de suas tribulações luminosamente limpas e elevadas. Em aguda oposição àquilo que gostaríamos que fosse verdadeiro, de súbito percebemos que as vítimas da crueldade ficam à espera da chance de pagar seus opressores com a mesma moeda -- e se a vingança contra seus opressores de ontem, ou seus descendentes, por algum motivo for inviável ou inconveniente, eles se apressam ao menos a apagar a ignomínia e a desgraça de suas fraquezas do passado e a afastar o espectro de inferioridade herdada e persistente."

A impossibilidade, por qualquer motivo, de pôr em prática esta última opção, pode ser uma tentativa razoável de explicar por que Hannah Baker cometeu suicídio na obra de ‎Jay Asher, e por que tantos casos semelhantes pululam na vida real.

Se houver alguém que consiga escapar de um suplício e, depois de tudo por que passou, extrair a poção para o aprimoramento pessoal, esta é sem dúvida uma raríssima exceção. A regra é sempre a lex talionis, ou o esquecimento como alternativa (sem que nisso haja qualquer benefício). Ou ainda, como último recurso, a desgraça maior que a do sofrimento padecido. Qualquer coisa além é apenas clichê de autoajuda.
Bauman e a contestação da ideia otimista de purificação a partir dos infortúnios Reviewed by Carlos Wolkartt on sábado, abril 29, 2017 Rating: 5
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